Conceitos Filosóficos
UM SENTIMENTO
Um Sentimento
Baseado nas palavras de O Sensei e também nas experiências de vida, como também nos ensinamentos de outros mestres, pessoas, papai, mamãe, enfim tudo que existe, meu sentimento com relação à arte do Aikido é que: se realmente entendermos a sua essência, teremos uma enorme ferramenta para o desenvolvimento de um mundo melhor, com pessoas melhores espiritualmente, cheio de paz, alegria e felicidade.
Outrora poderemos nos frustrar e achar que estamos mais fortes, mais poderosos, cobiçando sempre mais este lado da força, ao meu ver egocêntrico, egoísta e arrogante. Aikido não é para uma única pessoa, “o meu Aikido”.
Aikido é para todos, só se tem êxito se for trabalhado em conjunto, um respeitando o outro, um somando com o outro, trabalhando com o espírito voltado para o desenvolvimento interno. A técnica é apenas técnica. Se colocarmos de lado a essência, que é o espírito correto, não conseguiremos ter um resultado positivo, no qual a arte proporciona, o de sermos pessoas melhores em nossas atitudes, pensamentos, palavras e principalmente em nossos corações.
Se treinarmos Aikido somente no seu aspecto físico, pelo resto da vida, não teremos chance de conhecermos o seu verdadeiro coração, será somente superficial e não nos levará a lugar algum. Agora se quisermos ter a chave do tesouro teremos que estudar e praticar no aspecto espiritual, só assim seremos conduzidos ao entendimento do coração do Aikido e seremos então pessoas muito melhores capazes de proporcionar um mundo melhor.
Marcio Zanardo Sabo
O SEU AIKIDO É EFICIENTE
O seu Aikido é eficiente?
Christian Rocha
Tenho acompanhado algumas discussões em e-grupos de Aikido. Entre idéias filosóficas, questões técnicas e trocas de informações entre dojos, praticantes e mestres, a questão da eficiência da arte aparece com uma freqüência perturbadora.
Discute-se, por exemplo, se o Aikido é realmente eficiente como técnica de combate. Pergunta-se como seria um duelo entre o Aikido e outras artes marciais. Radicais de vários tipos alternam-se nas respostas. Uns dizem que o Aikido é eficiente, que suas técnicas marciais são devastadoras e que um atacante não teria chance contra um aikidoka experiente. Outros dizem que o objetivo da arte não é esse, que a filosofia é importante, que o Aikido é a arte de evitar o conflito, que o atacante na realidade deve ser chamado de parceiro. Estes dizem que o Aikido é Budô e que Budô é vida. Aqueles dizem que Aikido é Budô e que Budô é a arte de guerrear (a tradução literal fornece "a arte do samurai").
Todos estão certos nestas colocações. O equívoco está nos pressupostos. As discussões surgem por algumas falhas de compreensão sobre as artes marciais, as pessoas e suas expectativas e objetivos em relação às artes que praticam.
Artes marciais são artes de combate. Suas origens, suas tradições e o modo como elas se perpetuam atualmente demonstram essa realidade. Treina-se arte marcial num dojo ("lugar em que se pratica o caminho"), sobre um tatami (superfície que absorve o impacto das quedas, preservando a integridade física do praticante), sob orientação de um sensei ("aquele que nasceu antes"), com uma pessoa (ou várias, que no Aikido são chamadas de uke ou tori) que lhe ataca de alguma forma (golpeando ou segurando a outra pessoa, de um modo geral). O objetivo do treinamento marcial é eliminar o ataque da forma mais rápida e eficiente possível.
A partir daqui cria-se a primeira confusão. Eficiência é um termo muito vago. O dicionário define eficiência como "a virtude de produzir um efeito"; portanto, a eficiência depende do efeito desejado.
No Japão feudal, a eficiência estava na capacidade de matar o oponente. Não havia uma dimensão espiritual no treinamento marcial. A tradição samurai nasceu entre camponeses, numa época em que a ausência de um governo central exigia que os camponeses defendessem suas próprias terras. Não havia uma espiritualidade ou um código de ética inerentes às técnicas desenvolvidas pelos primeiros samurais. Mais tarde, com a tradição samurai já consolidada, a ética e a espiritualidade já eram parte importante da vida dos guerreiros (a maioria dos livros e filmes que falam de samurais refere-se a essa época, compreendida entre os séculos XIV e XVII).
A tradição samurai foi influenciada por três correntes filosófico-espirituais: o zen-budismo, que lhe conferiu serenidade, desapego e leveza intelectual; o xintoísmo, que lhe ensinou o patriotismo e a lealdade; e o confucionismo, que lhe mostrou a importância das relações familiares, sociais e políticas. Apesar disso, a maior parte da prática samurai limitava-se a preparar-se para a guerra e a participar dela.
A Reforma de Meiji elimina a classe samurai, como diz José Yamashiro em seu "História dos Samurais". A modernização implicou a modificação do papel do samurai na sociedade japonesa. Alguns analistas dizem que o impulso imperialista do Japão no início do séc. XX deve-se à distorção do espírito samurai, já que as invasões japonesas não condiziam com os princípios propostos pelo bushido (o código de ética do samurai). Fato é que, embora os samurais ainda representassem cerca de 50% na camada superior da sociedade japonesa nos anos 1930, não havia razões para manter o mesmo modo de vida combativo típico dos samurais em meio à modernidade do séc. XX.
Para sobreviver à Reforma de Meiji, que abalou a tradição guerreira dos samurais, muitas artes de combate tornaram-se artes de desenvolvimento pessoal. Desta forma a tradição samurai pôde manter-se viva. Nesta época surgem muitas das artes marciais praticadas atualmente, embora a raiz marcial de fato remonte ao tempo do Japão pré-feudal. Algumas substituem o sufixo -JUTSU pelo sufixo -DO: enquanto este significa caminho ou senda espiritual, aquele simboliza a arte de guerrear. Assim, o kenjutsu (a arte da espada) dá origem ao kendo, o jojutsu (a arte do bastão) origina o jodo, o jiujutsu origina o judo e assim sucessivamente.
A eficiência marcial deixa de ser a habilidade de derrotar o oponente e passa a ser a habilidade de aprimorar-se e desenvolver-se. O combate é mantido como forma de treinamento. Mas se no Japão medieval a habilidade marcial era medida pelas manchas de sangue do oponente no próprio kimono, modernamente ela passa a ser medida pela capacidade de preservar a vida, de aplicar as técnicas marciais não de forma destrutiva, mas de forma criativa, econômica e em conformidade com os princípios assinalados pelas doutrinas em que as artes se baseiam. Ao menos em tese, num mundo onde a violência é cada vez mais generalizada e terrível, o samurai moderno é aquele que é capaz de praticar artes de paz e não de guerra.
Não existe, portanto, uma forma de dissociar forma e conteúdo, técnica e espírito. A paz não é uma simples condição física. Assim como o artista marcial é composto de corpo, mente e espírito, um treinamento marcial só será completo quando desenvolver esses três aspectos do praticante, que na realidade são uma única e mesma coisa. Evidentemente, o homem cria dissociações para facilitar sua compreensão da natureza e de sua própria natureza.
A vida de Morihei Ueshiba coincide com o período de maior transformação das artes marciais. Mestre Ueshiba começa sua vida no Daito-ryu Aikijiujitsu e termina como fundador do Aikido, consagrado como um dos maiores artistas marciais da história, recebendo ainda em vida o título de Tesouro do Japão. Essa transformação não se deu simplesmente através do treinamento marcial ou apenas através de práticas ascéticas e espirituais.
A vida de O-Sensei (como é reconhecido atualmente) é uma prova da combinação harmoniosa entre práticas marciais, filosóficas e espirituais. O-Sensei pode ser considerado o maior samurai moderno, talvez o único.
Embora a guerra tenha deixado de ser o objetivo das artes marciais, elas preservaram a competitividade e a oposição, dois elementos-chave para a solidificação do espírito guerreiro. A maioria das artes marciais coloca uma pessoa diante da outra. Uma ataca e a outra se defende sem preocupações maiores com o atacante. O objetivo da defesa é anular o ataque, ainda que isso possa causar ferimentos ou contusões no atacante. Por causa disso, luxações, hematomas e até fraturas não são conseqüências raras do treinamento de muitas artes.
Algumas, prevendo esse tipo de ocorrência, utilizam exercícios de calejamento e de desenvolvimento muscular, de modo a ganhar força e resistência para suportar golpes e torções.
Mestre Ueshiba percebeu que isso era um problema. Graças à sua ascendência xintoísta e à sua sabedoria desenvolvida com estudo perseverante, Morihei percebeu que a competitividade é uma das principais causas da violência. O desejo de tornar-se melhor do que o outro deveria ser substituído pelo desejo de tornar-se melhor do que si mesmo. Esta é uma das características mais importantes do Aikido.
A ausência de competições tornou possível a simplicidade e a naturalidade do Aikido. Como o objetivo não é derrotar o oponente, não há razões externas para tornar-se forte com exercícios físicos severos, tampouco para calejar o corpo com técnicas agressivas. O progresso acontece na medida em que o próprio praticante deseja e permite, não conforme calendários de competições, o desejo do mestre ou a influência dos companheiros de treino.
A competição é a reprodução moderna da ética das antigas artes de guerra. Como tal, só poderia renovar o espírito combativo que existia no Japão antigo. Isso explica o fato de alguns clássicos da arte da guerra serem interpretados sob a óptica empresarial, como é o caso dos livros de Sun Tzu e Miyamoto Musashi. Trata-se, tão somente, da perpetuação do espírito agressivo dos antigos samurais, desta vez sem sangue, espadas ou técnicas marciais, mas ainda com competitividade.
A eficiência do Aikido está na sua capacidade de sobrepujar essa agressividade natural do ser humano. O-Sensei foi bastante claro em seus objetivos quando desenvolveu o Aikido. Diz ele em seus poemas:
"Não há adversários na Arte da Paz. Um verdadeiro guerreiro é invencível porque não está em luta com coisa alguma. A derrota significa derrotar a mente na luta que acolhemos dentro de nós."
"O verdadeiro guerreiro está sempre armado com 3 coisas: a radiante espada da pacificação; sabedoria e amizade; e a preciosa jóia da iluminação."
"A ARTE DA PAZ é o princípio da não-resistência. Uma vez que é não-resistente, ela é vitoriosa desde o começo. Aqueles imbuídos de más intenções e de pensamentos contenciosos são vencidos instantaneamente. A Arte da Paz é invencível pois não está em luta com coisa alguma."
E sobretudo:
"O Caminho de um Guerreiro (BUDO) é baseado na humanidade, amor e sinceridade; o coração do valor marcial é a verdadeira bravura, sabedoria, amor e amizade. A ênfase colocada nos aspectos físicos da arte de guerrear é fútil, pois o poder do corpo é sempre limitado."
A segunda confusão que se dá em torno da eficiência surge daquele que é o principal paradoxo do Aikido.
O Aikido tem diversos epítetos: a arte da paz, o caminho da harmonia, o caminho da sabedoria, a arte da cooperação, a arte da reconciliação. Todos este nomes coincidem em pelo menos um ponto: união. A paz existe onde não há conflito; se as pessoas estão unidas, há paz, pois não há diferença entre mim e as outras pessoas. Assim ocorre com a harmonia. Além disso, uma das marcas do sábio é a capacidade de gerar união e consonância, de trazer à tona os elementos que aproximam coisas e pessoas diferentes; todo sábio é, portanto, um pacificador. Reconciliar significa também reunir, aproximar o que estava distante.
E a cooperação só ocorre quando existe proximidade e união. O próprio nome Aikido traz em si a palavra Aiki. Aiki significa "harmonia com energia" ou "unificação do ki" (ki é a energia que fornece e sustenta a vida em todas as suas formas).
Como crer que uma arte com estes significados possa acontecer através de técnicas de combate?
A resposta surge quando observamos um dos epítetos acima expostos: reconciliação.
O-Sensei conhecia a natureza humana. Ele próprio foi vítima de diversos ataques no início de sua vida de artista marcial -- é emblemática a história de sua viagem à Mongólia, onde foi preso e por pouco não foi executado.
A Aikikai, que promoveria a divulgação do Aikido no mundo, foi fundada em 1948, poucos anos depois do final da Segunda Guerra, ainda com o Japão marcado pela derrota. Seria inadequado propor uma arte de reconciliação sem propor maneiras capazes de lidar com as causas dos conflitos e com a agressividade inerente ao ser humano.
Como passar da violência à paz?
A primeira forma de lidar com a violência é sobrevivendo a ela. Para isso não é necessário matar ou ferir os supostos agressores, mas apenas livrar-se das agressões.
A segunda forma é eliminar ou interromper a violência, isto é, a ação física. Isso não pode ser feito de uma forma qualquer. Se uma pessoa lhe dá um soco, há várias técnicas de defesa que lhe permitirão defender-se fraturando o braço do oponente. Mas isso não parece inteligente, já que uma defesa desse tipo provavelmente terá causado sérios ferimentos, rancor e ódio -- coisas que alimentam a agressividade e o espírito vingativo. A defesa, neste caso, teve efeito inverso, isto é, aumentou a possibilidade de um ataque.
A terceira forma é transformar o espírito agressivo em espírito pacífico. Abraham Lincoln dizia que uma das melhores formas de eliminar um inimigo é transformá-lo em amigo.
A primeira forma é o "o que" da arte marcial -- sobrevivência. A segunda forma é o "como".
A terceira forma é o "por que". Técnica e eticamente falando, a arte marcial é 1) uma forma de defender-se de um agressor, 2) de preservar a integridade física, espiritual e mental das pessoas envolvidas na agressão e, principalmente, 3) de transformar o espírito delas.
As religiões se propõem a construir um mundo pacífico, a harmonizar e eliminar os conflitos, mas a maioria delas é ineficaz ao lidar com ações violentas -- algumas até são usadas por fanáticos em ações desse tipo. Da mesma forma, muitas artes marciais permitem a defesa pessoal eficaz, mas causam traumas e estimulam a competitividade, como foi dito antes. E há diversas práticas que tornam o indivíduo forte e resistente, capaz de sobreviver a agressões diversas, mas que não o tornam capaz de pacificar.
As três formas expostas, portanto, não se anulam nem se opõem, apenas se completam. O Aikido se propõe a reuni-las numa única arte.
Dito isso, discutir a eficiência do Aikido só faz sentido se definirmos o efeito que se espera da arte. O Aikido pode ser um meio de sobreviver a uma agressão, um conjunto de técnicas para controlar um agressor ou uma arte de pacificação. O mais interessante, no entanto, é que o Aikido propõe essas três coisas ao mesmo tempo, sem se prender a qualquer um desses três aspectos. A vacuidade espiritual da prática do Aikido reduz a arte a um conjunto de técnicas de combate. A vacuidade técnica transformaria o Aikido em religião ou simples filosofia.
A vacuidade intelectual e filosófica dificultaria o desenvolvimento espiritual e daria espaço à agressividade e à competição. Aikido é corpo, mente e espírito -- não nesta ordem, mas simultaneamente.
O fato de o treinamento começar pelas técnicas físicas não exclui o treinamento mental e espiritual. Da mesma forma, o desenvolvimento espiritual e mental não deve reduzir a importância do treinamento técnico e físico. O paradoxo do Aikido e as confusões decorrentes só existem para quem permanece ligado aos elementos visíveis da arte.
Sob a técnica e a capacidade impressionante de derrubar oponentes existem anos de treinamento dedicados à purificação de si (no Aikido, esse processo é chamado de misogi) e harmonização do mundo. O-Sensei via o Aikido como uma panacéia, como ele mesmo dizia:
"O mundo continuará a mudar drasticamente, mas as lutas e a guerra podem nos destruir completamente. O que necessitamos agora são técnicas de harmonia, e não de repressão. A Arte da Paz é necessária e não a Arte da Guerra."
Por fim, a terceira confusão relacionada à eficiência do Aikido diz respeito à própria existência da arte. Primeiramente, não se sabe até que ponto a arte existe por si e até que ponto ela existe através de seus praticantes. O que é o Aikido? Tentar responder esta pergunta conduziria a digressões metafísicas extensas demais para um ensaio já excessivamente longo.
Se o Aikido possui uma realidade apreensível ela se deve sobretudo ao trabalho dos grandes mestres que estudaram com O-Sensei e também de todos aqueles que de alguma forma se dedicam a perpetuar a arte. Atualmente o Aikido está presente em quase todos os países do mundo. Até a década de 1950 era uma arte presente apenas no Japão.
Em pouco mais de 50 anos espalhou-se e colocou-se à disposição de pessoas muito diversas. Naturalmente a arte foi influenciada pela cultura dessas pessoas, assim como a visão particular de cada discípulo de O-Sensei deu origem aos estilos que hoje se nos apresentam. Não há razões para crer que uma linha, um mestre ou um dojo é melhor ou mais autêntico, a não ser por critérios muito particulares, limitados e que, portanto, se justificam apenas pela preferência pessoal. Eu, por exemplo, pratico o Ki-Aikido por razões muito pessoais. Cresci nesta linha e devo respeito, lealdade e gratidão a ela. Isso não me permite ignorar, criticar ou recusar os ensinamentos de outros mestres e de outras linhas.
Por estes motivos, o critério de eficiência do Aikido muda conforme as características de cada linha. Em linhas mais técnicas, a eficiência é medida pela capacidade técnica. No Ki-Aikido os critérios envolvem "testes de ki" e outros exercícios com pouca ênfase marcial. Todas as linhas coincidem, no entanto, no objetivo de fazer o aikidoka desenvolver-se completamente, física, mental e espiritualmente.
O procedimento mais sábio seria praticar todos os estilos existentes, inclusive aqueles menos comuns e mais isolados, mas essa tarefa é humanamente impossível. Diante dessa impossibilidade, o respeito às diferenças já basta. Para respeitar, basta perceber que aquele Aikido que é diferente do seu é apenas uma faceta do Aikido transmitido por O-Sensei.
*** Nota: espero que o leitor que teve a paciência e o interesse para chegar ao final deste ensaio entenda que o título não pretendia desafiar, mas fazer pensar. Afinal, o "seu" Aikido não é seu, mas a expressão daquilo que seu mestre lhe ensinou. Ele, por sua vez, aprendeu com outro mestre e todos eles tiveram O-Sensei como fonte comum, sábio samurai que dizia que Aikido é amor, respeito e união.
ENERGIA KI
KI: A Energia Básica
O Kanji Ki é formado por dois radicais: Vapor e Arroz. Arroz? Sim, arroz. Constituindo a alimentação básica na China, o arroz representa a vida. Nessa qualidade, é utilizado como radical na composição de vários kanjis relacionados a alguma idéia derivada de vida. Provavelmente foi escolhido no lugar do próprio Kanji que representa a vida porque este não é simples o suficiente para ser usado como radical, enquanto o Kanji arroz o é. Então, o significado original de Ki é "vapor de vida". E é assim que Ki é representada artisticamente, como um fluído ou vapor carregado de energia de força vital.
Todos os povos primitivos de grande espiritualidade e superstição possuíam a noção de uma força fluída invisível que preenche a natureza e anima os seres vivos, estando ligada diretamente à qualidade da saúde e entrando no corpo pela respiração. Em resumo, atribuíam ao ar a fonte da vida e da saúde. Cada cultura deu-lhe um nome: Qi na China, Ki no Japão, Prana/ Shakti/ Kundalini na Índia, Ti no Havaí, Mana na Oceania, Aither (éter) e Pneuma na Grécia, Aether (éter), Aura e Spiritus (espírito) em Roma. Com o passar do tempo foram criados mais nomes: Quintessência, Vril, Força Ódica, Orgone, Bioplasma, Telesma, Baraka, Magnetismo Animal, Força Vital, Fogo Cósmico, Fogo da Serpente, o Dragão da Terra, a Força. Praticamente todas as doutrinas de artes marciais, de esoterismo e de filosofia e metafísica baseadas no Taoismo apresentam esse conceito de energia espiritual, ou Ki.
Voltemos ao caractere chinês empregado no Taoismo. Qualquer que seja a interpretação do ideograma Ki, ele sempre representa algum tipo de energia de natureza espiritual. Na sua origem a energia representava o aspecto do espírito que se refere à força vital. Com o tempo, essa energia passou a representar também o aspecto do espírito que se refere ao humor e ao pensamento. Em resumo, Ki é a energia vital e psíquica.
Segundo a crença, Ki tem um papel importante em tudo o que fazemos. Para favorecer o equilíbrio orgânico e espiritual, pode ser acumulada e guiada pela mente. Os chineses levam muito a sério a Ki, que chamam de Tchi (dependendo do sistema de romanização pode ser escrito Qi, Chi ou Ch'i). Estudaram a energia Ki por centenas de anos e descobriram que há vários tipos diferentes de Ki. O "Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo", de mais de 4 milênios de idade, lista 32 diferentes tipos de Ki.
Traduzindo Ki
Quando traduzindo do Japonês para o Português devemos ter em mente que uma tradução exata é difícil. A língua japonesa possui vários níveis de significado, variando do mundano ao altamente místico. Portanto o contexto no qual a palavra está sendo usada deve ser considerado quando da tentativa de comunicar sua essência. Ki é freqüentemente definido em dicionários como "espírito", "mente", "humor", ou até "ar", mas é uma das diversas palavras japonesas que não têm uma correspondente ocidental. As traduções mais corretas são aura, ar e pneuma, no seu sentido original. Ou seja, quando referir-se à energia fluída de força vital, trata-se da concepção original de AR; quando referir-se à situação em que uma sensação forte está "no ar", trata-se de AURA. A concepção grega de éter é de uma substância igual à Ki, mas que não carrega a energia da vida como a Ki. Já a pneuma é praticamente idêntica à Ki, pois representa o espírito aéreo responsável pela saúde; considero a tradução mais apropriada para Ki.
Outra forte candidata a tradução de Ki é a palavra Espírito, que inclusive é como o gênero de Ki Anime foi traduzido em inglês. É importante salientar que o sentido original da palavra latina spiritu é sopro, e acabou representando o sopro de vida, igualando seu sentido à concepção original de Ki. Mas spiritu não representava a energia do humor ou do pensamento. Mais de dois milênios depois uma gama enorme de significados é atribuída a tal palavra, inclusive o sentido que antes lhe faltava. Assim, espírito é a única palavra que representa todas as qualidades de Ki ao mesmo tempo.
O que torna perigoso usar espírito como tradução para Ki é justamente a quantidade enorme de interpretações que tal palavra latina pode sofrer. Entretanto, hoje em dia, éter refere-se a uma substância química, aura à irradiação de energia dos organismos vivos, e espírito a diversos estados de consciência. Sendo Ki a energia da vida e da mente e sendo espírito ao mesmo tempo a força vital e a consciência, energia espiritual é a melhor traduçào de Ki.
Na verdade, o grande problema dessa tradução é que os conceitos de mente, alma e espírito cada vez mais se diversificam, adquirindo sentidos e usos variados. Não sou linguista, mas creio que posso afirmar com bastante segurança as seguintes definições. Espírito, na concepção original, é o sopro de vida, a energia etérea que anima o corpo. A mente, por sua vez, é a consciência individual de cada animal, ou seja, o conjunto dos seus pensamentos, sentimentos e sensações, sendo baseada no cérebro. As características de cada mente vêm da alma, ou seja, da predisposição psicológica que é a essência de cada ser. Através da mente, a alma interage com o mundo. Os efeitos dessa interação se refletem na mente, mas certamente jamais alteram a alma.
Ki Como Energia Vital
Ki é a força da vida, a energia imaterial onipresente que no seu fluxo anima todos os seres vivos e permeia o Universo, ligando todas as coisas como um todo. É a energia básica que media o físico com o espiritual, através da qual o humor e o pensamento agem sobre o mundo físico. Sendo fluída e onipresente, os antigos a consideravam o próprio ar; como tem a ver com o estado de espírito, associavam a ela também o humor. Sua qualidade determina sua cor, que só pode ser vista por pessoas sensitivas.
Enquanto um ser está vivo, possui força vital circulando-o e cercando-o; quando morre, a força vital o deixa. Se sua força vital está baixa, ou há restrição no seu fluxo, se sentirá fraco e estará mais vulnerável a doenças. Quando está alta, e fluindo livremente, dificilmente adoecerá e sentir-se-á forte, confiante, e preparado para enfrentar a vida.
Recebemos Ki pelo ar que respiramos, pela comida, luz solar, e pelo sono. É possível também aumentar nossa Ki usando exercícios de respiração e meditação. Ki é usada por artistas marciais no seu treinamento físico e desenvolvimento espiritual. É usada em exercícios de respiração meditativos chamados Prana-yama, e pelos xamãs de todas as culturas para adivinhação e ciência, manifestação e cura psíquicas. Todos os curandeiros trabalham com a energia Ki, embora cada um a chame e a entenda como quiser.
Os EFEITOS orgânicos que muitos atribuem à energia Ki são considerados até mesmo pela medicina moderna, embora a ENERGIA KI EM SI não seja levada a sério. Isso porque a concepção de Ki foi criada com base no estudo dos fenômenos vitais. Ou seja, é apenas o que se acreditou ser a "causa" desses processos. Portanto, não se deve desprezar as técnicas desenvolvidas com base na teoria que se baseia em fatos. Tanto é que os efeitos das técnicas da acupuntura e do qigong estão sendo comprovados cientificamente, embora as "causas" de tais efeitos que são alegadas pelos praticantes de tais técnicas não sejam, necessariamente, reais. No fim, o que importa não é a causa, mas a conseqüência.
Ki Como Energia Psíquica
Um atributo importante da Ki, já mencionado, é que ela responde a pensamentos e sentimentos. A força do fluxo de Ki sobre um organismo é diretamente proporcional à qualidade dos pensamentos e sentimentos do indivíduo. São nossos pensamentos e sentimentos negativos que causam interrupções no fluxo de Ki. Os locais onde pensamentos e sentimentos negativos se concentram é onde o fluxo de Ki se restringe. Nesses pontos o organismo funciona mal e podem surgir doenças. Mesmo a medicina ocidental moderna reconhece a influência da mente sobre a condição orgânica e muitos médicos ocidentais apontam 98% das doenças como conseqüência direta ou indireta do estado de espírito do doente.
Deve ser compreendido que a mente não existe apenas no cérebro; este é apenas seu centro funcional, mas o sistema nervoso estende a consciência e subconsciência a cada órgão e tecido do corpo. Ademais, a parapsicologia sabe que a mente se estende num sutil campo de energia de cerca de 60 a 90 centímetros chamado Aura. Por causa disso, não se pode analisar separadamente a mente do corpo, já que estão tão ligados. Tal como o estado da mente é influenciado pelo estado do corpo, este é influenciado pelo estado de espírito. Isso são fatos; se são conseqüências da Ki é uma questão de crença.
O maior problema são os pensamentos e sentimentos negativos alojados no subconsciente, pois não estamos cientes deles e portanto não podemos mudá-los ou eliminá-los por nós mesmos. É aí que entra a cura por Reiki, por exemplo. Sua doutrina alega que, através de suas técnicas, a Ki é guiada pela Consciência Divina, portanto sabe exatamente a onde ir e como responder a restrições no fluxo de Ki. Ao fluir numa área sem saúde, a Reiki "lava" quaisquer pensamentos e sentimentos negativos e os elimina, independente de o indivíduo conhecê-los ou não. Assim, sendo livre de consciência e influência tanto do curandeiro quanto do paciente, o método de cura Reiki vem se tornando cada vez mais popular no Ocidente.
Reiki: Ki Universal
Reiki hoje em dia refere-se a uma técnica de canalização manual de Ki para fins curativos e está se difundindo pelo mundo.
Os místicos do método de cura Reiki afirmam que numa idéia mais profunda e completa Rei representa a Consciência Superior (Deus, ou Tao, no caso) e chamam Reiki de variações da expressão Energia de Força Vital Universal ou Cósmica.
Touki: Ki de Luta
A filosofia de diversas modalidades de artes marciais fundamentam-se no controle da Ki para aumentar a resistência e força físicas a níveis extraordinários (Kung-fu/Quanfu, Aikidô) ou apenas para manter a saúde (Tai-chi). O mesmo ocorre com os quadrinhos, animações e videogames japoneses..
Análise Científica
Se você não pode acreditar nisso ora por simples incredulidade ora por fé, não esqueça que virtualmente todas as práticas relacionadas a Ki são verídicas e algumas até comprovadas cientificamente. Isso porque, provavelmente, a Ki da Aura é a energia projetada pelo corpo durante seus vários processos biológicos, como os fluxos de sais e os sinais elétricos gerados pelo sistema nervoso.
Isso significa que há uma grande probabilidade de os princípios da Ki serem meros processos físicos. Se isso for comprovado, os princípios da Ki deixarão de pertencer ao campo metafísico para fazer parte do campo científico. Obviamente, o mesmo não pode ser dito do CONCEITO ORIGINAL de Ki, que certamente é totalmente metafísico. Para poder entender esta análise, é necessário entender que o CONCEITO de Ki e os PRINCÍPIOS de Ki são duas coisas distintas. O conceito é uma causa, que, para muitos, pode parecer deveras fantasiosa. Já os princípios são a conseqüência, ou seja, fenômenos reais que ainda não foram explicados cientificamente, ao menos não que eu saiba. Se forem explicados, um NOVO CONCEITO surgirá, concedendo aos princípios da Ki uma CAUSA CIENTÍFICA que substituirá a CAUSA METAFÍSICA original.
Mas voltemos à análise da Aura e suas possíveis características e causas físicas. O sistema nervoso funciona à base de impulsos elétricos através de íons, partículas com carga elétrica que compõem os sais. Correntes elétricas, que são um fluxo de campos elétricos, produzem campos magnéticos, e esse conjunto caracteriza a emanação de energia eletromagnética. Segundo esse raciocínio, a Aura nada mais seria que todo o campo eletromagnético formado pelos organismos animais. Quanto à idéia de a energia da Aura vir pela respiração e pela alimentação, sabemos que os principais combustíveis das células nervosas são o oxigênio e a glicose. Considerando que o sistema nervoso capta praticamente todas as informações referentes à condição do organismo (sua saúde), mesmo que não sejamos completamente cientes delas, o campo projetado por seus sinais, se detectado, poderia ser usado para identificar problemas de saúde, talvez até da saúde mental. Na verdade pouco se sabe a respeito, mas é possível que no futuro se venha a confirmar tudo isso.
Se a Aura funciona tal como me parece, talvez campos energéticos externos que venham a entrar em contato com uma Aura possam influenciá-la, mesmo que sutilmente, invertendo o processo normal de forma a estimular o sistema nervoso - para bem ou para mal. Como o encéfalo (cérebro, cerebelo, bulbo etc.) está especializado em reconhecer estímulos eletromagnéticos, um outro campo talvez possa estimulá-lo também. Podemos ir até mais longe: uma Aura muito forte poderia talvez emitir pensamentos, sentimentos e sensações que poderiam ser captados por uma pessoa com alta sensibilidade a esses sinais; tal fenômeno caracterizaria a tão discutida telepatia.
Se tudo isso for verdade e uma Aura com energia excepcional por algum desequilíbrio mental entrasse em atividade intensa, poderia causar fenômenos ditos sobrenaturais ou paranormais, como por exemplo a telepatia, a combustão expontânea e façanhas físicas (de faquires e artistas marciais) que vez ou outra vemos na TV hoje em dia. Além disso, eu soube que a técnica chinesa de ChiKung/QiGong (Prática de Ki) empregada pelo renomado Yan Xin já teve sua influência sobre a matéria estudada em laboratório várias vezes, comprovando que funciona, seja uma energia básica esotérica, seja uma energia física. E não podemos esquecer que os chakras (pontos de convergência de Ki) coincidem com os plexos (emaranhados de nervos) e órgãos vitais, o que apenas reforça a teoria de tratar-se da energia do sistema nervoso.
MESTRE YODA
"Concentre-se. Sinta o fluxo da Força. Nem dentro nem fora, mas como uma parte de tudo que existe. Através da Força, coisas você verá. Através do tempo e do espaço ela avança. Outros lugares. O futuro… o passado. Amigos que há muito se foram. Sempre em movimento o futuro está. Tamanho não importa. Olhe para mim: julgar-me pelo meu tamanho você irá? Bem, não deve. Por que meu aliado é a Força. E um aliado poderoso é. A vida ela cria, e faz crescer. Sua energia nos permeia e nos une. Seres luminosos somos nós... não esta matéria crua. Você deve sentir a Força ao redor. Aqui, entre você... eu... a árvore... a pedra... em todos os lugares! Em balanço está a Força. A Escuridão e a Luz. Sem um, não há o outro. O Lado Negro tentador é. Rápido, fácil no início, mas uma armadilha é o Lado Negro. Mau, corrupto. Uma vez que se começa no Lado Negro, para sempre dominará seu destino. Para o caminho da Luz, paciência você precisa. Controle. Paz e harmonia ele é".
O RIO CORRE SOZINHO
E o RIO corre sozinho.
Vai seguindo seu caminho.
Não necessita ser empurrado.
Pára um pouquinho no remanso.
Apressa-se nas cachoeiras.
Desliza de mansinho nas baixadas.
Precipita-se nas cascatas.
Mas, no meio de tudo isso vai seguindo seu caminho.
Sabe que há um ponto de chegada.
Sabe que seu destino é para frente.
O rio não sabe recuar.
Seu caminho é seguir em frente.
É vitorioso, abraçando outros rios, vai chegando no mar.
O mar é sua realização.
É chegar ao ponto final.
É ter feito a caminhada.
É ter realizado totalmente seu destino.
A vida da gente deve ser levada do jeito do rio.
Deixar que corra como deve correr.
Sem apressar e sem represar.
Sem ter medo da calmaria e sem evitar as cachoeiras.
Correr do jeito do rio, na liberdade do leito da vida,
Sabendo que há um ponto de chegada.
A vida é como o rio.
Por que apressar?
Por que correr se não há necessidade? Por que empurrar a vida?
Por que chegar antes de se partir?
Toda natureza não tem pressa.
Vai seguindo seu caminho.
Assim é a árvore, assim são os animais.
Tudo o que é apressado perde gosto e o sentido.
A fruta forçada a amadurecer antes do tempo perde o gosto.
Tudo tem seu ritmo.
Tudo tem seu tempo.
E então, por que apressar a vida da gente?
Desejo ser um rio.
Livre dos empurrões dos outros e dos meus próprios.
Livre das poluições alheias e das minhas.
Rio original, limpo e livre.
Rio que escolheu seu próprio caminho.
Rio que sabe que tem um ponto de chegada.
Sabe que o tempo não interessa.
Não interessa ter nascido a mil ou a um quilômetro do mar.
Importante é chegar ao mar.
Importante é dizer "cheguei".
E porque cheguei, estou realizado.
A gente deveria dizer: não apresse o rio, ele anda sozinho.
Assim deve-se dizer a si mesmo e aos outros:
Não apresse a vida, ela anda sozinha.
Deixe-a seguir seu caminho normal.
Interessa saber que há um ponto de
chegada e saber que se vai chegar lá.
É bom viver do jeito do rio!
“Se não houver frutos, valeu a beleza das flores,
Se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
Se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Henfil
COMUNICAÇÃO CORPORAL
AIKIDO E A COMUNICAÇÃO CORPORAL - SENTIMENTO
A comunicação corporal é muito importante na prática do Aikido. Diz-se que se você não entende as palavras de seu mestre, não é seu discípulo. Entender as palavras do mestre ou sua linguagem é entender o próprio mestre. E quando você entende, descobre que sua linguagem não é apenas linguagem comum, mas a linguagem no seu sentido mais amplo. Através da linguagem de seu mestre, você compreende mais do que suas palavras de fato dizem.Tudo quanto dizemos envolve nossa situação ou intenção subjetiva. Assim, não há palavra ou ação que seja perfeita; em qualquer coisa que se diga ou faça existe sempre alguma distorção. Contudo, através das afirmações de nosso mestre temos de entender o próprio fato objetivo: o fato último. Por fato último não aludimos a algo eterno ou constante, e sim às coisas como elas são a cada momento: a algo que podemos denominar “ser” ou “realidade” ou mesmo “aqui e agora”.
Entender a realidade como uma experiência direta é a razão de praticarmos Aikido. Pelo estudo do Aikido, você entenderá sua natureza humana, sua faculdade intelectiva e a verdade presente em sua atividade humana. E você pode tomar em consideração sua própria natureza humana ao buscar a compreensão da realidade. Mas somente pela prática efetiva do Aikido é que você pode experimentar diretamente a realidade e entender, em seu verdadeiro sentido, as diversas afirmações feitas pelo seu mestre. A rigor, não é possível discorrer sobre a realidade. Entretanto, se você é um estudante de Aikido, você tem de compreendê-la diretamente através dos movimentos ou palavras de seu mestre.Seu mestre se expressa diretamente, não apenas por meio de palavras; seu comportamento (movimento) é também um modo de expressar-se e o mais comumente nesta arte.
No Aikido, enfatiza-se a forma de ser ou o comportamento (movimento), esse conceito é muito importante. Por comportamento (movimento) não é o simples fato de fazer o movimento e sim de transmitir a expressão natural de você mesmo. Seja franco e direto. Você deve ser verdadeiro com seus sentimentos e sua mente e expressar-se sem quaisquer reservas. Isto ajuda o seu parceiro a entender mais facilmente.Quando você pratica Aikido, deve deixar de lado suas idéias preconcebidas e opiniões subjetivas: deve apenas treinar, apenas observar a maneira de ser do seu parceiro.
Dar-se pouca importância ao certo ou errado, bom ou mau. Apenas notamos como são as coisas para ele (parceiro) e as aceitamos. Este é o modo de comunicar-se um com o outro no Aikido. Em geral, quando você corrige o seu parceiro, é como se fosse uma espécie de eco de você mesmo. Na verdade, está ouvindo seu próprio erro. Se a correção está de acordo com sua opinião, você a aceita; se não, a rejeita ou pode mesmo até ignorá-la. Esse é um perigo ao se corrigir alguém. Outro perigo é ser apanhado pela afirmação. Se você não entende o verdadeiro sentido do que seu mestre disse, ficará enredado fácil em algo que está comprometido com sua opinião subjetiva, ou no modo particular em que aquela afirmação foi expressa. Você se limitará a aceitar o que foi dito como uma afirmação, sem compreender o espírito por trás dela.
Este tipo de perigo está sempre presente na vida diária. Portanto, como ouvinte ou como discípulo, é preciso limpar a mente dessas várias distorções. Uma mente cheia de idéias preconcebidas, intenções subjetivas ou hábitos, não está aberta para as coisas como elas são. É por isso que praticamos Aikido; para limpar a mente daquilo que está vinculado a alguma outra coisa.É bastante difícil manter-se natural consigo e, ao mesmo tempo acompanhar de forma apropriada o que os outros dizem ou fazem. Se, propositadamente, tentamos nos adaptar a alguma forma de ser, ficará impossível ser natural. Se você tentar se ajustar a um modo determinado, perderá a si próprio. Portanto, expressar-se livremente, tal como você é, sem intenção de adaptar-se a alguma forma de ser imaginária é o mais importante para fazer você entender e fazer você feliz e fazer os outros felizes.
Este tipo de habilidade se adquire com a prática do Aikido. O Aikido não é nenhuma arte especial ou excêntrica de viver. O treinamento de Aikido é apenas viver, sempre dentro da realidade, em seu sentido preciso. Fazer o nosso esforço, momento após momento, é o nosso caminho. A rigor, a única coisa que podemos estudar em nossa vida é aquilo sobre o que estamos trabalhando a cada instante. Nem sequer podemos estudar as técnicas de O Sensei. Estudar as técnicas do O Sensei, a rigor, significa estudá-las através de alguma atividade com a qual você depara momento após momento, ou seja, com a realidade, com o aqui e agora. Portanto, concentremo-nos de corpo e alma no que fazemos e sejamos fiéis, subjetiva e objetivamente, a nós mesmos e, em especial, aos nossos sentimentos. Mesmo quando você não está concentrado, melhor é expressar seus sentimentos sem qualquer apego ou propósito particular.
Assim, você deve dizer: “Oh! desculpe, estou desconcentrado”. Isso basta. Não deve dizer: “Você me desconcentrou! ou Ah! sabe o que é...” Isso é demais. Diga: “Oh! queira me desculpar. Estou desconcentrado”. Não há por que argumentar que não está desconcentrado quando está. Apenas diga: “Estou desconcentrado”. Isso basta.A verdadeira comunicação depende de sermos francos e diretos uns com os outros. Os mestres de Aikido são muito francos e diretos. Se você não compreender a realidade diretamente através das palavras ou movimentos de seu mestre, ele poderá lhe bater com o bastão ou dar uma bronca.
O caminho do Aikido é muito direto. Porém, você sabe, isso de fato não é Aikido. Não é o método tradicional; ainda que para torná-lo evidente é mais fácil, ás vezes, recorrer a esse método. Mas o melhor meio de comunicar-se é apenas treinar, sem nada dizer. Então você terá o pleno significado do Aikido. Se seu mestrelhe bater com um bastão até perder as estribeiras ou até que você morra, ainda assim não será suficiente. A melhor maneira é simplesmente treinar.
BUSHIDO
Bushido - Caminho do guerreiro
Bushido, significa literalmente, "caminho do guerreiro" - era um código dehonra não-escrito e um modo de vida para os samurais (a classe guerreira doJapão feudal ou bushi), que fornecia parâmetros para esse guerreiro viver emorrer com honra.
"Seguir o bushido, é dar ênfase à lealdade, fidelidade, auto sacrifício,justiça, modos refinados, humildade, espírito marcial e honra acima de tudo,morrer com dignidade".
Bushido é formado e influenciado pelos conceitos do Budismo, Xintoísmo eConfucionismo. A combinação dessas doutrinas e religiões, formaram o códigode honra do guerreiro samurai, conhecido como bushido.
O Budismo se relaciona com o bushido, através do destemor do perigo e damorte. O samurai não temia a morte pois acreditava nos ensinamentos budista,que pregava a vida após a morte. Voltaria no encargo de guerreiro em suascontínuas reencarnações. Os samurais não tinham medo do perigo, as técnicasde meditação do Zen, foram usadas como um meio de limitar esse temor. Com osensinamentos Zen, os samurais buscavam entrar em harmonia com seu Euinterior e com o mundo a sua volta. O desapego era a base do samurai, com apratica do desapego, o samurai se tornou a maior casta de guerreiros que jáexistiu.
Bushido foi influenciado também, pelos preceitos do Xintoísmo, como alealdade, o patriotismo, e a reverência aos seus antepassado. Com tallealdade para com a memória de seus ancestrais, os samurais empenham essamesma reverência ao imperador e ao seu daimyo ou senhor feudal. Xintoísmotambém fornece importância para patriotismo com seu país, o Japão. Elescrêem que a Terra não existe apenas para suprir as necessidades das pessoas."É a residência sagrada dos deuses, dos espíritos de seus antepassados..." ATerra deve ser cuidada, protegida e alimentada por um patriotismo intenso.
O Confucionismo oferece ao bushido, sua crença em relação aos seres humanose suas famílias. Confucionismo ressalta o dever filial e as relações entresenhor e servo, pai e filho, marido e mulher, irmão mais velho e mais novo eentre amigos, que são seguidas pelos samurai. Junto com estas virtudes, obushido também prega a justiça, benevolência, amor, sinceridade,honestidade, e autocontrole. Justiça é um dos principais fatores no códigodo samurai, assim como o amor e a benevolência que são suntuosas virtudesdos samurais.
Bushido, literalmente traduzido, significa "Caminho do Guerreiro", bushi"guerreiro" do "caminho". Neste sentido, o ideograma para caminho, emjaponês, é equivalente à forma chinesa "Tao", e exprime o conceitofilosófico de absoluto. Este conceito traz a idéia de origem, princípio eessência de todas coisas.
"O bushido, significa a vida total do guerreiro, sua devoção a espada, seurespeito às normas ditadas pelo Confucionismo. Não é apenas um sistema deética a ser seguido pelas classes sociais. É a estrada do cosmo, osvestígios sagrados dos Céus, apontando o Caminho". - O Livro Dos CincoAnéis.
No geral, guerreiro é aquele que busca seu próprio caminho. Muitas pessoaspodem estar perfeitamente buscando o caminho sem saber disso. Guerreiro é apessoa que tem um objetivo, e que por meio deste, passa a ter consciência deseu dom e suas limitações. Através dessa consciência, o guerreiro atinge suameta, combinada com a vontade de vencer fraquezas, temores e limitações.
Cada pessoa trilha seu próprio caminho, já que existem vários caminhos comoo caminho da cura pelo médico, o caminho da literatura pelo poeta ouescritor, e muitas outras artes e habilidades. Cada pessoa pratica de acordocom a sua inclinação. Por isso pode-se chamar de guerreiro, aquele que segueseu caminho específico.
Porém, no bushido, a palavra guerreiro significa muito mais do que isso. Otermo bushi não pode ser designado a qualquer um. O bushi é diferente, poisseus estudos do caminho baseiam-se em superar os homens. A casta guerreirase distingue das demais por sua fidelidade e honra, a palavra do guerreirovale mais do que tudo.
"Quando o guerreiro assume uma responsabilidade, mantém sua palavra. Os queprometem e não cumprem, perde respeito próprio, tem vergonha de seus atos esua vida consiste em fugir, gastam mais energia dando desculpas paradesonrar sua palavra, do que o guerreiro usa para manter seu compromisso. Ásvezes o guerreiro assume uma responsabilidade que resultará em prejuízo. Nãotorna a repetir esta atitude, mas honra o que disse e paga o preço de suaimpulsividade". - Manual Do Guerreiro Da Luz.
O caminho do guerreiro é o caminho da pena e da espada, esse conceito vem doantigo Japão feudal e determinava que a nobreza (bushi) dominasse tanto aarte da guerra quanto a leitura, e que ele deve apreciar ambas as artes. Obushi deve aprender o caminho de todas as profissões, se informar sobretodos os assuntos, apreciar as artes e quando não estiver ocupado em suasobrigações militares, deverá estar sempre praticando algo, seja a leitura oua escrita, armazenando em sua mente a história antiga e o conhecimentogeral, comportando-se bem a todo momento para ter uma postura digna de umsamurai, tudo isso sem desviar do verdadeiro caminho, o bushido.
A etiqueta deve ser seguida, todos os dias da vida cotidiana, assim como naguerra pelos samurais. Sinceridade e honestidade são as virtudes que avaliamsuas vidas. Transcender um pacto de fidelidade completa e confiança estaligado à dignidade. Os samurais também precisavam ter autocontrole, desapegoe austeridade para manter sua honra, em função disso, podemos dizer que osamurai é o guerreiro completo e seu código de honra - o bushido - tem forteinfluência no estilo de vida do povo japonês e oferece uma explicação docaráter e da indomável força interior desse povo.
Para o bushido, o caminho do guerreiro exige que a conduta de um homem sejacorreta em todos os sentidos, dessa forma, a preguiça é um mal que deve serabominado. Mas existe problemas quando a pessoa se apóia no futuro, poistorna-se preguiçosa e indolente, já que deixam pra amanhã, aquilo quepoderia ser feito hoje. Pessoas que agem dessa maneira, não seguem overdadeiro preceito do bushido, que de um modo geral, é a aceitação resolutada morte.
"Um samurai deve antes de tudo ter sempre em mente, dia e noite, desde amanhã de ano novo, quando pega os palitos para tomar café, até a noite doúltimo dia do ano, quando paga suas faturas, o fato de que um dia irá morrer. Essa é a sua principal tarefa". - Bushido O Código Do Samurai -Daidoji Yuzan.
Se o guerreiro tem plena consciência da morte, evitará conflitos, estarálivre de doenças, além de ter uma personalidade com muitas qualidades ediferenciada às dos demais seres humanos. O guerreiro vive o presente sem sepreocupar com o amanhã, de modo que quando contempla o rosto das pessoas,sente como se nunca mais fosse vê-los novamente, e portanto, seu dever econsideração as pessoas, serão profundamente sinceros. O verdadeiroguerreiro é aquele que aceita a morte, dessa maneira, ele não irá se meterem discussões desnecessárias que venham a provocar um conflito maior, já queassim ele pode acabar sendo morto, e isso talvez resultaria na sua desonraou afligiria a reputação e nome de sua família. Se a idéia de morte émantida, será cuidadoso e suscetível de ser discreto e não dirá coisas queofendam às outras pessoas. Também não cometerão excessos doentios com acomida, bebida e sexo, usando a moderação e a privação em tudo, permanecendolivre de doenças e mantendo uma vida saudável.
O guerreiro deve arder com a morte em desespero. "Naoshige disse uma vez: -O bushido significa a morte em desespero. Várias dezenas de samurais sadiosnão podem matar um único samurai (que arda com essa morte em desespero).Homens sadios, de mente calmamente bem-compostas não podem realizar umgrande empreendimento. Você só precisa ficar desesperado a ponto de morrer.Se a discrição e a consideração do momento fundem-se com seu bushido, vocêna certa hesitará e ficará aquém de sua espreita". - Bushido: O Caminho doSamurai - Tsuramoto Tashiro.
Resumindo, bushi é aquele que segue o caminho do guerreiro. Miyamoto Musashidizia: - Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que vocêver o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho.
KAWAI SHIHAN
ENTREVISTA COM KAWAI SHIHAN
POR NAGAO SENSEI
YN: Qual a sua definição de AIKIDO?
KAWAI SHIHAN: Aikido é um Budo que visa vencer a si próprio e não aos outros. Esta é uma síntese de uma profunda filosofia desenvolvida pelo fundador Grão Mestre Ueshiba. Aikido, portanto, é algo além do Budo. Pode ser visto como uma filosofia de vida na qual a pessoa passe a viver em unidade e harmonia com a natureza, aceitando e respeitando as diferenças que existem entre as pessoas, sem impor idéias e princípios através da força. No Aikido existe também um princípio que considero de extrema importância: o respeito e gratidão que os filhos devem ter pelos pais ou que um aluno deve ter por seu mestre ou professor. Em japonês chamamos esse princípio de Giri Ninjo.
YN: Quando o senhor arremessa 30, 50 pessoas durante 40 minutos ou mais (Ju Wasa), sem demonstrar qualquer alteração respiratória, cansaço ou esforço aparente, como isso é possível?
KAWAI SHIHAN: O ser humano ao se colocar numa postura de muita força física aparenta ser forte, mas na realidade não é. Ao contrário, se feita a concentração Saika-Tanden (região logo abaixo do umbigo) ou Zen com a mente limpa e serena encontra-se uma situação de muita força. É dessa forma que no Ju Wasa passo uma hora ou mais arremessando pessoas e permaneço tranquilo sem ficar cansado. Isto não é difícil e, com treino, todos poderão fazê-lo.
YN: O que é o KI, tão falado no Aikido?
KAWAI SHIHAN: Realmente, é muito difícil de definir o KI em português. Na língua japonesa temos muitas palavras cuja essência está na sílaba KI, a mesma usada no Aikido. Kuuki (ar), Denki (luz), Tenki (tempo), Seiki (energia vital), Kibun (astral), Kishitsu (natureza do ser) e Kimoti (sentimento) entre tantas outras. Talvez a tradução mais próxima no português seja “energia”. A idéia é utilizarmos o KI e imaginá-lo como uma força que não seja a muscular.
YN: O Aikido teve como uma das bases as técnicas do Daito Ryu Aiki Ju Jutsu. Qual a diferença entre as duas artes?
KAWAI SHIHAN: O Mestre Takeda Sookaku, de quem o Mestre Morihei Ueshiba foi discípulo, ensinou o Daito Ryu Aiki Ju Jutsu, cuja essência era “vencer o adversário”. O fundador do Aikido ensinou que a essência do Budo deveria ser “vencer a si próprio”. Esta diferença fundamental de visão e de postura fez com que caminhassem em direções completamente opostas e o fruto das técnicas aprendidas somadas a uma nova base filosófica deu origem a uma nova arte chamada Aikido. É por isso que insisto: O Aikido não é somente uma questão de técnica, esta pode ser facilmente adquirida. O importante é fazer a ligação à filosofia.
YN: O Aikido pode ser visto como arte marcial, filosofia, terapia e esporte. Qual o sentido que o senhor atribui como sendo o principal?
KAWAI SHIHAN: Cada vez que me aprofundo nos estudos e práticas do Aikido, mais me convenço da filosofia desenvolvida pelo Mestre Morihei Ueshiba. Várias são as facetas que o Aikido apresenta. No meu caso específico, por eu ter nascido e sido criado durante a guerra e em decorrência dos problemas de saúde que tive, senti na própria pele o que é ser dominado e não poder reagir. Entendo que devemos fazer de nossos filhos, e das pessoas em geral, indivíduos com personalidade forte, que não se deixem submeter, que não se apavorem a toa e que possam viver bem e felizes nesse mundo conturbado. Acredito que o Aikido pode ajudar as pessoas nesse sentido.
YN: Além de Mestre em Aikido, os senhor também é Mestre em Medicina Oriental e vive da prática de acupuntura. Como foi esta escolha?
KAWAI SHIHAN: Como falei anteriormente, eu tive problemas de saúde durante a guerra. Um acidente com minhas pernas foi considerado um problema irreversível pelos médicos da época. Foi graças às sessões de acupuntura que voltei a caminhar e, assim, tornei-me discípulo do mestre que me deu condições de voltar a andar. Fui salvo, tive a oportunidade de aprender a arte dessa cura e entendo que devo ajudar pessoas que estejam necessitando de uma ajuda, assim como eu precisei.
YN: Em que sentido o Aikido pode ser considerado uma terapia?
KAWAI SHIHAN: Em muitos sentidos. Só pelo fato de alguém se tornar mais autoconfiante, já o liberta, em parte, do estresse e da ansiedade. Fisicamente, ao fazer-se o Ukemi (exercício de queda sem traumas), movimenta-se a coluna, o que melhora o funcionamento dos orgãos internos. O mesmo acontece com as manipulações das articulações (joelhos, pulsos, cotovelos, pescoço). Sem dúvida, o Aikido é uma bela terapia.
YN: De que maneira o Aikido é recomendado para crianças? Qual o sentido que deve nortear o ensinamento para crianças?
KAWAI SHIHAN: Em primeiro lugar, as crianças têm uma capacidade menor que a dos adultos para repetir determinadas ações durante muito tempo. As aulas para crianças devem ser mais dinâmicas e atraentes. A partir da mistura de técnica e brincadeiras, deve-se orientar as crianças na formação individual, desenvolver a capacidade de concentração, respeito pelos companheiros, professores e pais. Acredito que este conjunto fará das crianças pessoas sadias, seguras e equilibradas. Ao torná-las pessoas autoconfiantes e com personalidade própria, em muito irá ajudá-las a estarem livres de envolvimento com drogas. Só isso já terá valido a pena.
YN: Ao observarmos os vários Mestres e os vídeos enviados pelo Hombu Dojo, vemos que as técnicas são aplicadas com “suavidade”. Mesmo as suas técnicas vêm se suavizando. É uma tendência daqui pra frente?
KAWAI SHIHAN: A aplicação ou não de força é uma questão complexa. O Aikido tem um importante princípio que diz que as técnicas não são aprendidas para destruir. Significa que jamais devemos aplicar as técnicas visando causar danos, muito menos em parceiros. No geral, a tendência da orientação do Hombu Dojo é a de praticar as técnicas de maneira suave. Isto não exclui treinos específicos, feitos de modo vigoroso e não brutal. Trata-se também de uma questão de maturidade dos praticantes. Mesmo as técnicas do fundador sofreram alterações durante as várias épocas de sua vida, no que diz respeito ao vigor. Quanto mais jovem o praticante, mais vigorosa é a técnica.
YN: Isto significa que, nos tempos antigos, as técnicas eram aplicadas com mais vigor que nos tempos atuais? Existe alguma razão concreta para estas alterações?
KAWAI SHIHAN: Na época em que o Aikido surgiu, a regra do Budo era “quanto mais forte melhor”. Mesmo aqui, quando iniciei a prática do Aikido, recebia desafios de pessoas que praticavam outras artes marciais e tinha que estar preparado. Hoje, com o Aikido consolidado no seu devido contexto, não temos tido problemas desse tipo e, portanto, as orientações são outras. Pode-se dizer que hoje o mundo aceita como válido aquilo que diferenciou o Aikido do Daito Ryu Aiki Ju Jutsu.
KISSHOMARU UESHIBA
Extraído do livro "Aikido no Kororo"
Empreendi o treinamento do corpo através do budô e, ao mesmo tempo que aprendi todos os segredos, obtive uma verdade ainda maior. Quando compreendi a essência da realidade universal, vi claramente que os seres humanos devem unificar o 'sentimento' (kokoro), o corpo e o ki que une os dois e que a pessoa deve harmonizar sua atividade com a atividade de todas as coisas do universo, ou seja, dependendo da atividade sutil do ki, o sentimento e o corpo se harmonizam e, também, se harmoniza a relação entre o indivíduo e o universo.Se não se utiliza corretammente a atividade sutil do ki, o sentimento e o corpo das pessoas adoecem, o mundo se torna caótico e o universo todo fica em desordem.
Conseqüentemente é necessário harmonizar os 3 corretamente com a atividade de todas as coisas do universo para que haja ordem e paz no mundo. O Aikido é o caminho da verdade. Treinar-se no Aikido é treinar-se na verdade. Pela dedicação, treinamento e compreensão nascerá a técnica divina.
Somente dedicando-se aos 3 tipos de treinamento mencionados a seguir, é que a verdade inabalável da força extraordinária se tornará parte do nosso sentimento e do nosso corpo:
1. Treinar para harmonizar o sentimento com a atividade de todas as coisas do universo;
2. Treinar para harmonizar o corpo com a atividade de todas as coisas do universo;
3. Treinar para fazer com que o ki que une o sentimento e o corpo se harmonize com a atividade de todas as coisas do universo.
Somente quem pratica e realiza esses três pontos simultaneamente, não apenas teórica, mas praticamente, do Dojô e em cada momento da vida diária, que é considerado o verdadeiro aikidoísta. O mestre Ueshiba ensinou repetida vezes:Cada técnica de uma arte marcial deve estar de acordo com a verdade do universo. Se isso não acontecer, a arte marcial estará isolada e com natureza diferente da arte marcial criadora de amor, o 'take musu'.
O 'Aiki' é desde a sua origem um 'take musu' por excelência. Aqui, marcial 'take' significa o bramido heróico, a vibração do corpo através do poder do 'aum' (o poder da respiração) que ressoa no espaço.A vibração interna do corpo deriva da unificação sentimento / corpo, que se sintoniza com a vibração do universo. A resposta mútua e o intercâmbio produzem o 'ki' do 'Aiki'.
A essência do Aikido é o ecoar da vibração interna do corpo com a vibração do universo. Disso nascem o calor, a luz e o poder unidos num espírito plenamente realizado. O delicado ecoar do interior do corpo e a vibração do universo amadurece a atividade sutil do 'ki' e geram o 'takemusu aiki', a arte marcfial que é amor e o amor que não é nada mais que arte marcial.
A resposta à pergunta de como se alcança a unidade do 'ki' universal com o 'ki' individual, sua atividade harmoniza e resposta mútua, está no treinamento e na prática intensivos. Isso faz da harmonia e do amor a essência do Aikido. Ambos estão no cerne do Aikido. O fundador considerava que esta era a essência última e a verdade maior.
Tradução e adaptação Ivan Sensei
CHIKARA NO DASHI KATA (A Extensão da Energia)
"A razão pela qual o Aikido pode ser praticado e aplicado habilmente tanto por pessoas altas, baixas ou fracas, é devido a seus movimentos naturais e racionais. Estes movimentos que manifestam a unidade entre o KI, a mente e o corpo, são o ideal da arte, e o importante na prática do Aikido é treinar para alcançar esse estado.
Como exemplo, imagine que estende seu braço e tenta evitar, com toda a sua força e energia, que alguém o dobre. Você verá que, apesar de sua resistência, não será difícil a outra pessoa dobrá-lo no cotovelo. Depois, abra a mão e imagine que dirige sua energia desde seu Seika Tanden, seu "centro", o ponto central de sua gravidade física e de concentração de sua energia. Este ponto é a zona central de seu baixo abdômen, exatamente embaixo do seu umbigo. Estenda seu braço com a sensação de que sua energia flui desde seu centro para cima, através de seu braço, e que se projeta pelas pontas dos seus dedos. Não deixe que se interrompa ou que se aglomere nos ombros ou nos cotovelos a sua energia; ao contrário, relaxe-os, imaginando que não são mais do que canais para a sua energia fluir.
Desta vez, surpreendentemente, será difícil a seu parceiro dobrar-lhe o cotovelo. Portanto, quando você concentra voluntariamente toda sua energia e a estende a outra pessoa, o efeito é inesperadamente intenso.Como mostrou-se no exemplo anterior, a extensão de sua energia depende do estado de seu centro. O poder de um centro estável inspira-se na plenitude do espírito e atravessa todas as partes do corpo, fluindo para fora deste. Por isso no Aikido dizemos: Chikara O Dasu (Projete a energia), em vez de: Chikara O Ireru (Use a força).
Sua energia não deve estar inativa, pois, da mesma maneira que a água, pode estagnar-se. Ao contrário, você deve ser como um riacho, fazendo com que a energia flua de seu corpo através das pontas dos dedos de suas mãos e de seus pés, e também do brilho dos seus olhos, projetando-a para a sua meta. Este poder não consiste simplesmente em "usar a força". A "extensão da energia" é o poder máximo que reside na unidade e que qualquer pessoa pode utilizar, uma vez que tenha unificado seu KI, mente e corpo.Se um praticante de Aikido acredita que é apropriado usar força, e agarra seu companheiro, puxando-o, está totalmente confundido. se tentar puxar seu companheiro, este, por reflexo, puxará em direção contrária, e o resultado não será mais do que um mero esforço, uma força contra outra.
Uma pessoa que pode levantar 200 kg, porém que não saiba utilizar sua energia, se assombrará com a capacidade de "extensão da energia" que pode manifestar uma criança que não podia levantar mais do que 20 kg, porém que tenha sido treinada no Aikido. Por isso, ao praticar o Aikido, a primeira coisa que se tem que aprender é como estender a energia suavemente desde o centro através de todas as partes do seu corpo. Desta maneira, todo o seu organismo se estabilizará e perderá a rigidez".
MORIHEI UESHIBA
Ô Sensei disse:
"Até agora todo o Budo tem sido direcionado para a destruição; para matar. Se as pessoas se comportarem dessa maneira novamente, o resultado será outro período horrível. O Budo precisa gerar felicidade e dar prazer ao parceiro. Precisa ser o Budo do amor. Você precisa dar prazer ao seu parceiro. Portanto, precisa tornar-se capaz de imediatamente ver o Ki do parceiro. Você precisa treinar para ser capaz de entender imediatamente o Ki do parceiro, no momento do entrosamento. Você precisa unificar a palavra, o corpo e a mente. Você precisa se tornar um, trabalhando com todas as forças do universo, com o Kami e a forma da natureza. Corpo, palavra e mente: estas três precisam estar em harmonia com o universo. Se você fizer isso, o verdadeiro Budo está nascido. O Budo da destruição se tornará o Budo da felicidade e da consideração e respeito pelos demais”.
“O amor cria a harmonia, que a harmonia cria a felicidade e que a felicidade é o maior tesouro. O espírito de criar a paz no mundo vem antes do waza. Sem o espírito, seu Aikido não progride. Olhe para a natureza e entendam o trabalho do Kami. Decidam o caminho certo observando o trabalho do Kami, todos os dias”.
“Eu só posso mostrar o caminho, vocês deverão percorrê-lo por si próprio. Eu só posso explicar a vocês o que o kami me disse. Tenham gratidão; sejam agradecidos aos outros e à natureza. Sem gratidão, não poderão se tornar verdadeiros seres humanos. O poder da natureza, do sol, nos dá tudo. Quando chove, os campos produzem arroz. As frutas e os grãos crescem. Essa é a dádiva da terra. Só assim terão a chave da essência do Aikido. Por isso o Keiko é tão importante”.
“Olhem os movimentos da natureza, assim entenderão o Aikido. Harmonia é o mais importante. Para se tornar harmonioso, você precisa trabalhar para lapidar os contornos. Na harmonia não existem cumes – ou pontas, somente contornos. A semente é arredondada, já que as plantas têm hastes arredondadas. O mais importante é que, se existe harmonia, existe afeição, amor. Amor é o coração benevolente. Você precisa ter respeito pelos outros. É importante criar isso. Se você tem um coração benevolente, você pode dar amor e, então, a harmonia aflora. Quando nasce a harmonia, a felicidade também nasce. Assim, o amor dá origem à harmonia e a harmonia concebe a felicidade. E a felicidade origina o maior tesouro. Nós, humanos, devemos tomar conta de toda a natureza no lugar do Kami. O Kami nunca ensinou as pessoas a matar uns aos outros. Se não somos capazes de dar felicidade e alegria, perde o nosso tesouro; esse tesouro é espiritual. Não é ouro ou diamantes. Não é uma questão de técnicas fortes. A proposta do Aikido é ensinar isso. Somente desta maneira o mundo se tornará uma família”.
“Através do Aikido, vocês aprendem a interpretar a mente das outras pessoas e cooperar no evitar desavenças. Vocês podem alcançar tudo o que querem, não através da luta, mas através da harmonia. È por isso que precisam trabalhar em conjunto; o benefício é mútuo. É preciso garantir que o outro lado esteja protegido, em vez de desprezá-lo ou magoá-lo. Vocês precisam pensar nos benefícios do outro lado. Quando vocês colaboram para isso, a força do Ki se move em boa direção. Quando vocês usam a força para saírem de uma situação, o fluxo do Ki é bloqueado. Aikido é não-resistência, vocês não devem resistir, basta apenas usar o Ki. Vencer, sem conflito. Vencer a si mesmo; sempre vitorioso (Agatsu Katsu Hayahi no Mikoto)”.

